Os aristocráticos vinhos da Região de Colares, Sintra
Situada entre a Serra de Sintra e as falésias da costa atlântica, a área geográfica da Denominação de Origem Colares, situa-se nas areias de duna do concelho de Sintra.
Foi demarcada em 1908, é a mais pequena e uma das mais antigas regiões vitícolas portuguesas, atingiu o apogeu quando a filoxera destruiu as vinhas portuguesas, mas poupou as de Colares. Quando a viticultura se recompôs entrou em decadência e só por milagre não se extinguiu. Nos últimos anos renasceu e produz vinhos cada vez mais surpreendentes. Vale a pena conhecer uma das viticulturas mais exclusivas do Mundo e provar os seus vinhos desafiantes. Como dizia o poeta (Fernando Pessoa), são vinhos que “primeiro estranham-se, depois entranham-se”.

Uma rara tradição vitivinícola
Só uma tradição vitivinícola com muitos séculos de história e saber acumulado permitiria obter o estatuto, único, de que goza Colares. É diferente de todas as outras regiões vitícolas portuguesas e mundiais, em quase tudo: nas castas, nas técnicas de plantação, condução, cultivo e proteção da vinha, na capacidade de sobreviver à terrível praga que foi a filoxera, na técnica de vinificação, no processo evolutivo dos vinhos ao longo do envelhecimento e, acima de tudo, no estilo único, sofisticado e apaixonante dos seus vinhos, tanto brancos como tintos.
As duas grandes castas de Colares são quase exclusivas da região. A Malvasia de Colares, branca, é diferente de todas as restantes malvasias e adaptou-se admiravelmente às difíceis condições ecológicas da região. A casta tinta Ramisco, diferente de tudo o que existe em Portugal, é uma casta muito antiga, já descrita em 1791. Segundo reza a tradição, terá sido trazida de França por D. Afonso III, o Bolonhês. As grandes analogias morfológicas e enológicas que tem com a casta francesa Petit Verdot, confirmadas por reputados ampelógrafos, alguns deles franceses, alimentaram tal hipótese, mas o estudo do seu ADN não a confirma.
Vinhas de pé-franco, espalhadas pela areia
As condições naturais da região de Colares, com as “vinhas a ver o mar“, tornam a vida difícil às videiras, obrigando a uma técnica de cultivo que foi, certamente, aperfeiçoada ao longo de muitos séculos. A plantação, muito trabalhosa e com perigo de soterramento dos operadores, consistia na abertura de uma cova, que podia ter de um a sete metros de profundidade, até atingir a camada de argila, onde se unhava[plantava] o bacelo. Posteriormente, à medida que a nova videira ia crescendo, a areia era gradualmente reposta na cova. A planta, embora desenvolvesse o seu sistema radicular na areia, precisava da presença da argila para lhe garantir a humidade necessária ao seu desenvolvimento. Nestas condições de plantação não há filoxera que afete as videiras, pelo que continuam, ainda hoje, a ser plantadas de pé-franco [sem enxertia].
A forma elegante como os vinhateiros de Colares resolveram o problema dos fortes ventos marítimos é conhecida de todas as zonas ventosas, como os Açores ou as Canárias, consistindo no desenvolvimento horizontal da planta, rente ao chão, em vez do clássico crescimento das videiras em altura. No entanto, há particularidades únicas em Colares, como as sebes ou paliçadas de canas, abundantes na região, enquanto que nas ilhas recorrem a muretes de pedra ou lava basáltica. No interior das paliçadas as videiras crescem pelo chão, mais fazendo lembrar um polvo gigante com os seus grossos tentáculos espalhados pela areia do que uma cepa. Nos rastões [varas velhas] nascem as varas que vão dar os cachos, nalguns casos com mais de dez por cepa, e ocupando círculos com vários metros de diâmetro. Na altura da maturação, as varas são levantadas da areia, cerca de meio metro, com a ajuda de canas, e os cachos cobertos com erva seca, proveniente da monda, a arrenda, para prevenir o escaldão. A divisão das pequenas parcelas de vinha, feita com muretes de pedra solta, e a forma de cultivo da vinha, muito trabalhosa e impraticável nos dias de hoje, conferem uma característica única e arcaica à paisagem vitícola de Colares.
Vinhos de estilo inconfundível
Os vinhos, nomeadamente os tintos, não são fáceis e dificilmente entusiasmam um enófilo apressado ou pouco conhecedor. Apresentam um estilo muito diferente dos vinhos que estão na moda: em vez de encorpados, são delgados e aparentemente frágeis; em vez de bastante alcoólicos, raramente excedem os 11 graus; em vez de pouco ácidos e com um travo final macio, são nitidamente ácidos; em vez de dominarem os aromas fáceis da fruta e da madeira de carvalho, sobressaem os aromas terciários e muito complexos de um lento envelhecimento; em vez de se beberem novos, bebem-se velhos; em vez de mostrarem o que valem logo que se deitam no copo, precisam de tempo para evoluir; em vez de rústicos, são elegantíssimos, sofisticados e, por conseguinte, aristocráticos. Mas, como não há bela sem senão, têm alguns inconvenientes que os prejudicam. O mais importante de todos é a sua pouca fiabilidade, não sendo fácil adivinhar o que está dentro de cada garrafa. Tal facto, deve-se ao carácter artesanal com que ainda hoje são elaborados, engarrafados e envelhecidos. Outro inconveniente é o seu preço, sempre elevado, devido aos custos da cultura da vinha, às baixíssimas produções, às oscilações dos anos de colheita e à necessidade de um envelhecimento muito prolongado, tanto em depósito, como em garrafa, que com frequência ultrapassa a dezena de anos. Mas todos estes inconvenientes se esquecem quando se descobre a garrafa certa da colheita certa! É um momento único, que convém estar preparado para usufruir. O vinho deverá ser, necessariamente, decantado e servido em pequenas quantidades, em copos finos de cristal. Depois, deve-se dedicar-lhe a máxima atenção, bebericando-o devagar e apreciando as surpreendentes transformações por que vai passar nas próximas duas horas. Se, no fim desta aventura, sobrar um pouco de vinho no fundo da garrafa, valerá a pena guardá-lo para o dia seguinte, para apreciar, de novo, o seu aroma. Às vezes, já morreu, mas, muito frequentemente, ainda está melhor do que na véspera! Nessa altura o vinho de Colares ganhou, definitivamente, mais um admirador!
Virgílio Loureiro